top of page
Um choque de decência no ensino da Medicina
 

 

São preocupantes os problemas do ensino e da prática diária da Medicina hoje. O caos é anunciado, nasce do mercantilismo de parte do empresariado da educação e da falta de compromisso social de gestores. A abertura em massa de cursos médicos é desastrosa, especialmente se considerarmos os currículos inadequados e sem foco nas diversidades regionais, que não atendem às demandas dos cidadãos. O ensino deixou de ser baseado na comunidade.

A Residência Médica também encontra vários obstáculos. Faltam vagas para os formandos, os cursos seguem a linha tecnicista, em vez de humanística, e residentes são utilizados como mão-de-obra barata de hospitais. Enfim, são centenas os motivos que nos levam a questionar o modelo atual e a defender a urgente reforma do ensino médico, merecendo menção a falta de qualificação do corpo docente, desatualizado e sem compromisso.

Outro mal crônico emana das instituições públicas, nas quais é flagrante a tentativa de oportunismo de parcela dos professores. A despeito de ganhar para ensinar, pesquisar e oferecer assistência, muitos fogem das salas de aula e não acompanham o atendimento em saúde realizado pelos alunos e residentes. Abandonam ambulatórios e deixam a responsabilidade pelo sucesso ou fracasso dos tratamentos, pela vida ou morte de pacientes, nas mãos dos médicos residentes.

Tornar públicas tais distorções é fundamental em um momento que começam a aparecer, em setores isolados da academia, indecorosas "sugestões" de pagamento de suplementação para que os professores se dediquem de fato ao ensino. É um desrespeito ao dinheiro público.

Os professores já recebem para atuar nas três pontas da universidade: pesquisa, ensino e assistência. Não têm que receber bônus salarial para cumprir essas obrigações. É por isso, também, que devemos reavaliar o sistema de graduação. O docente não pode receber dos cofres públicos e deixar de dar aula porque prefere e/ou acha mais agradável trabalhar só com os já formados, dedicando-se à discussão de artigos científicos, ou fazendo projetos de pesquisa sem compromisso com a comunidade.

É preciso acabar com essa falácia. Se existe a possibilidade de transferência de mais recursos para o ensino da Medicina, e isso é necessário, o correto é criar programas de incentivo ou de suplementação para bons projetos vinculados ao ensino, e não para complementar renda de professores. Eis uma idéia politicamente correta que deveria ser encampada por agências de fomento.

Seria louvável a criação de planos de investimentos adicionais ou prêmios a propostas de melhoria dos resultados da graduação, para 
qualificar a estrutura de ensino, e possibilitar um aprendizado melhor e a difusão eficiente dos conhecimentos. A solução para a melhor performance do ensino médico requer medidas simples e doses de coragem para contrariar interesses.

A proposta para a graduação é clara: é preciso ter professor na sala de aula, professor na enfermaria, professor assumindo a responsabilidade de ensino, tanto na organização quanto no desenvolvimento de um bom conteúdo programático, e na criação de recursos e ferramentas para a aprendizagem.

Essa mudança de postura, aliada à reforma do currículo da Residência, é um entre tantos passos essenciais para oferecer uma perspectiva melhor ao futuro da Medicina. Não podemos formar um médico que se encastelará em grandes universidades, nos hospitais de ponta. É imprescindível que também esteja apto a atuar nestes locais, mas que, sobretudo, tenha a melhor formação para exercer a Medicina em qualquer localidade longínqua do país, atendendo aos cidadãos com competência e qualidade. Se não houver compromisso de fato dos professores, não alçaremos tais objetivos.

Na sala de aula, precisamos de mestres, não de omissos que desrespeitam o dinheiro público. Queremos o profissional que cumpre integralmente as obrigações de bem ensinar, de atender com eficiência no ambulatório, de se dedicar às pesquisas. Desejamos aquele que encara o paciente com olhar humanístico, que ensina pelo testemunho de sua presença, valorizando a relação médico-paciente, e que vê no aluno a possibilidade de formar um médico ainda melhor e mais completo do que ele próprio. É este professor que ficará para sempre. Os incompetentes e oportunistas passarão.


Artigo publicado no Jornal O Estado de São Paulo
junho de 2006

Professor Antonio Carlos Lopes

Endereço do Consultório
Rua Iguatemi, 354 - 4º Andar
São Paulo - SP
Cep: 01451-010

e-mail: aclopes@aclopes.com.br

Agendamento de Consultas
Fones: 11 3167-4620 

             11 3078-1312

             11 3167-5170
Fax:      11 3079-2476

  • w-facebook
bottom of page